sexta-feira, 26 de agosto de 2011

POESIA NA PAISAGEM DO TEMPO

Foto por Celêdian - Inverno no cerrado - Piracema - agosto 2011

Agosto chega anunciando a contragosto,
uma seca abrupta que todo o verde recolhe
e encerrando no cerrado, um certo desgosto,
de um certo rastro de vida que se encolhe.

O galho ressentido ainda guarda o gosto,
do outono, (das folhas que surrupiou-lhe
o inverno), mas resistindo bravo ao agosto.
E a poesia mesmo cega, um olhar lançou-lhe,

através dos olhos vivos e ávidos do poeta,
por colher de cada galho seco e tosco,
a vida daquela imagem tão real e concreta,

camuflada, projetava-se no tom fosco,
sobretudo, parecia minh’alma quieta,
sem aridez , com a vida retomando seu posto.

9 comentários:

  1. Belíssimo soneto !
    Bucólico, conjugando elementos sempre bem vindos como natureza e vida humana, em simbiose plena.
    Bjs sulinos

    IVAN CEZAR

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  2. Minha querida amiga Celêdian,

    este teu tão original soneto, além da profundidade de sentimento poético que contém, é um primoroso exemplo de sonoridade, digno de uma poetisa que domina o "métier" da linguagem de facto, de jure como tu és. É um soneto que, se lido em voz, as assonâncias em "a" e em "ô", magistralmente construídas, tornar-se-ão ainda mais patentes a cada leitura.

    Dentro do equilíbrio desta sintaxe poética tão particular que é o soneto, contrapõe-se a essas, neste teu, a assonância do "e" fechado do primeiro quarteto, e que se torna vogal aberta a partir do segundo – inverno, cego – estendendo-se até a última rima do primeiro dístico final. De forma inversa, dá-se a rima aberta do primeiro quarteto em "olhe" que se fecha no segundo em "ou-lhe". E que continua através dos tercetos em "ôs" (tosco, fosco, posto), como um eco desta vogal, reforçando de maneira genial o próprio pensamento expresso no soneto.

    Elemento de equilíbrio dentro das coerências semântica e sonora do poema, a palavra vida, quase omnipresente. Eu distingo dois movimentos, simétricos porém opostos, de dois sentimentos que têm o mesmo valor absoluto mas em significados contrários: o da seca final do inverno que anuncia o fim da via-crucis da vegetação, e o do consequente retorno desta à vida com a primavera, a transcendente ressurreição.

    Teu soneto, querida Celêdian, parece-me elíptico, ambivalente em forma e conteúdo, no entanto, cuja estrutura fechada projeta-se em espiral aberta com o paralelo que traça entre a psique humana, e a transcendência maior que se resgata do simbolismo das estações.

    Teu belo texto se completa com o supremo requinte de combinar duas palavras de mesma rima – agosto e posto – utilizado aqui para iniciar e fechar este dignamente magistral soneto. Honestamente, eu não teria os meios para, conquanto, este é um soneto que eu gostaria de ter escrito.

    Mais do que nunca, rendo-me à sua arte, querida amiga, e lhe saúdo com a minha mais profunda e sincera admiração. Bravo, grande poetisa!

    Meu forte abraço, um bom domingo.

    André

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  3. Mais harmonioso, impossível (apesar da seca, rsrs). A construção se afigura à leitura de forma tão gostosa que a gente até releva o revés da natureza. É pra isso (também ) que se prestam os grande poetas. Parabéns,Lindíssimo, minha cara amiga! Meu abraço. Paz e bem.

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  4. E agora, dizer o quê? Que um dia vou escrever sonetos assim ? Bem que eu gostaria, mas não vou não! Isso é para quem pode, não apenas para quem sabe - e eu ainda nem sei ! Agora você, você está em plena forma, e a minha homenagem é sincera. Parabéns, e um abraço grande.H

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  5. E fico a imaginar sua inspiração ao ver estes cerrado coberto de flores neste Setembro que se aproxima.Com esta elegancia e arte.Engraçado que não lembro de ter lido soneto de vossa obra e voce construiu numa beleza e perfeição plena.Meus parabens amiga Celedian.Que as cores e perfumes possam inundar seus dias.Fique na paz e com todas as alegrias.
    Meu terno e carinhoso abraço com minha admiração.

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  6. Dalva Molina Mansano11 de setembro de 2011 17:17

    Seu soneto conseguiu retratar fielmente a mutação que ocorre no mês de agosto, quando a vida realmente parece encolher-se. Mais uma vez, um grande momento poético! Grande abraço!

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  7. Bela combinação: Agosto e posto apimentado pela mãe natureza. Adorei.

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  8. Bem bonito, minha sumida amiga! - Abração

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  9. Amei este soneto, lúdico, bem ao meu gosto. O cerrado em si, proporciona criação. Abraço, amiga querida. Stan

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